Capítulo UmConheci Silvania numa entrevista de trabalho. Cercada por ela e mais duas pessoas, fui questionada sobre pretensão salarial, metas de trabalho e aspirações pessoais. Respostas quase padrão, por padrão ser algo que eu definitivamente não quero na vida, e um beijo, tchau, te daremos a resposta até sexta. Esta sexta, sem falta, acreditamos na comunicação, ora, por isso somos uma empresa que trabalha com ela.
Mas o que Silvania não sabe é que me ensinou algo de extrema importância. Um algo que tem se feito presente em algumas horas, mas que ficou tão claro naquele momento que quase levantei e disse: - Olha, obrigada, mas acho que já obtive o que vim buscar aqui. Entretanto, como espero ser mesmo contratada praquele novo lugar, me contentei em explodir de felicidade no meu finito interior. Silvania me escuta falar sobre minha última paixão, o marketing de guerrilha. Vê o brilho nos meus olhos, e como mulher experiente, vivida, vívida inclusive, com aqueles olhos de brilho também intenso, e rapidamente fala: - Aqui temos a novidade. Não estaria você procurando pelo surpreendente?
Hum... Silvania, o que há de tão diferente entre o novo e o que surpreende? Mas Silvania não responde. Obviamente ela não responde, já que esta parte do diálogo pertence única e exclusivamente ao meu cérebro a esta altura do campeonato. Hum... sabia que me serviria pra alguma coisa. Sabia, sinceramente, mas não esperava que fosse pra tanto. Vamos lá: há três anos, mais ou menos isso, eu e a Gabriela, aquela de quem sinto tamanha falta que não cabe em palavras, e acho que nem caberia num abraço apertado de reencontro, de tanto que sinto, estávamos combinando de fazer uma tatuagem juntas. Queríamos algo único, só nosso, que lembrasse a todo instante o que era uma pra outra, outra pra uma. E, servindo pra alguma coisa na vida, uma de minhas tantas paixões foi molde: as Sutilezas Intensas, em meus não tão expoentes ossinhos da saboneteira, e as Intensas Sutilezas, na cintura cheia de gostosura dela.
Voltando ao diálogo interior finitamente mais confuso. Está aqui, na pele, e nem preciso de espelho pra ver, e ler. Algumas pessoas franzem a testa pra decifrar este meu escrito, e fazem que ah, sim, claro, entendi. Mas eu não. Sei bem o que ela quer dizer. E hoje mais uma vez, me toco de que as minhas respostas estão tão anotadas em mim que sometimes I forgot to see them. Sutilezas Intensas. É esta a diferença entre o novo e o surpreendente.
- Não, Silvania. Estou procurando pelo novo em minha vida profissional. Deixo o surpreendente, puxa! como é que você percebeu?, que me encanta deveras, pra minha vida pessoal.
E enxergo com olhos de cigana oblíqua e dissimulada, by Capitu, que yes! I can! - separo minha vida em gomos e viro mexerica nos instantes de lidar com resoluções, e tudo fica mais simples que o tal sedutor e enigmático morango. Apenas por instantes. E só.
Capítulo Dois- Me desculpa?
- Pelo quê?
A pergunta em cima da pergunta faz parte do meu amor, que quase nunca responde clara e diretamente ao que lhe é questionado. Curiosidade, tempo pra pensar, característica pessoal e intransferível - já pensei muitas vezes sobre o que faz com que ele faça isso, e me contento em dizer que não cheguei a lugar algum e voltei a pensar em mim.
- Hum... me desculpa por você estar se sentindo assim.
Wrong. So wrong.
Recorro às origens: desculpa a gente pede quando faz algo errado, certo? Sim, certo. Faço coisas erradas, claro, muitas, diga-se de passagem. Mas, repita comigo, em frente ao espelho, repita com veemência: (as vezes) a culpa não é minha!!!
- Sinto muito por você estar se sentindo assim.
Melhor, bem melhor. Mais sincero, coerente. Coerência começa a fazer parte de forma presente, intensa, mas nada sutil. E quero o mesmo.
Capítulo TrêsA mudança. Mania, sim. Mania de jogar fora e querer ser eu. Opa! Pra que jogar fora se posso adaptar, transformar, ou continuar a fazer por acreditar e achar bom?

O passado me pertence tanto quanto meu presente, e também é o que quero ser quando crescer. Reviro fotos. revivo fatos, mesmo que de outras maneiras. Visito, em pensamento, lugares aos quais pertenci e onde senti. Passeio por entre as dores e alegrias das escolhas, e revejo que excluí algumas pelo simples fato de querer mudar. Joguei fora este momento? Ups... I did it again! Não quero mais.
Resgato esta e aquela história e me sinto tão mais perto do que sou. As marcas na pele servem pra lembrar. As da alma servem pra aprender. Não jogo mais nada fora, aprendo a neutralizar, guardar em gavetinhas seguras, devidamente trancadas - mas não jogo mais as chaves no mar. Iemanjá há de ter seus próprios problemas insolúveis.
Equilibrar e escolher um melhor final, ou dar continuidade direcionada pra onde vou chegar. Só assim pra conseguir...
Grávida aos dezoito. Minha barriga chama tanta atenção quanto o biquíni cor de rosa tie die(nossa, já gostei disso?), o olhar questiona o mundo ao redor, e encontro abrigo nos braços muito maiores que os meus. Sensação dúbia, mas extremamente prazerosa. Grávida e sozinha. Hum... grávida e acompanhada de outras pessoas que não o pai do bebê. Melhor, bem melhor.
Casei, separei e fui em busca da minha felicidade. Ah, mas ele não... ele não... ele não... Hum... eu não. Eu não queria mais aquela relação. Eu não me queria mais daquele jeito, naquela forma. Eu não acertei, ainda bem que o convencional nunca fez parte e pude partir sem explicar muito pra quem quer que seja. Mas eu... eu sei. Ah, eu sei o real motivo de me permitir partir, e me sinto segura ao sorrir e dizer que estou feliz - e que continuo querendo me casar, ter uma família pra chamar de minha, outro(s) filho(s), ficar velhinha junto, aprender e discutir, viver a vida ao lado, acompanhada, de conchinha, de mãos dadas e trocando beijos e declarações de amor.
E não é que eu já fui a rainha do baile? Já dancei muito, por horas a fio, me deleitando de prazer com a música. Mode rebolator = ON, muito ON, e me fazia feliz. Onde é que eu deixei a deliciosa prática da dança na vida? Por que, santo, deixei de dançar? Buscando... buscando... acha logo essa parte, oras...
Ovelha negra. É bonitinha, diferentinha, mas faz e quer de tudo tal e qual as outras ovelhas da manada. Não deixa de pertencer ao rebanho, mas se torna negra quando questiona o que as outras aceitam pura e friamente, se torna escura quando opta em desacordo com o grupo porque a faz feliz. Hum... tá bem, então.
::Os quase trinta, escritos assim, em três capítulos, não soam tão mal::